Mário Botas
(Nazaré, 1952-Lisboa, 1983)
Lisboa, Março de 1981


Caro Eduardo Lourenço:

Acabo de receber pelo nosso comum amigo Vasco da Graça Moura notícia das suas intenções de escrever uma pequena monografia a meu respeito. Há tanto tempo sem saber de si, foi-me duplamente grata a novidade.
Creio que o Eduardo Lourenço é uma das pessoas mais bem colocadas para ler os meus desenhos nos variadíssimos caminhos que percorrem à minha volta.
Sendo, de maneira diversa da sua, um falso exilado – no meu caso: um falso exilado da vida – os meus trabalhos são quase sempre recordações dela, vida que vou porém visitando amiúde para ao mesmo tempo refrescar a memória e dizer adeus.
Nesse paralelo entre Pátria e Vida creio podermos ter um diálogo interessante a deixar correr pelas páginas do livro.
Também me disse o Graça Moura que pensa cá estar por volta do dia 23.
Por essas alturas tentarei saber de si e marcar um possível encontro.

Um abraço amigo
do Mário Botas
Em «Divertimento Pessoano», um dos quatro textos1 que abrem o volume 33+9 Leituras Plásticas de Fernando Pessoa, de Alfredo Margarido (1928-2010), Eduardo Lourenço passa em revista alguns dos «iconógrafos» de Pessoa, afirmando que o pintor «Mário Botas será o seu vero evangelista, viajando na sua máquina de palavras e de fantasmas uma aventura desde o encontro de ambos, fora do mundo» (p. 13).
Alfredo Margarido não deixa de comentar a posição de destaque que Eduardo Lourenço atribui a Mário Botas (1952-1983): «É verdade que continuas a preferir a pintura do Mário Botas e pergunto se é pelo facto de ela já estar também institucionalizada, ou se é fruto apenas do trabalho da morte: o jovem pintor que morre cedo, para dar à sua própria criação a densidade mortal» (Paris, 18 de Outubro de 1986).
Independentemente da resposta, a verdade é que a relação de Eduardo Lourenço e de Mário Botas é feita de uma mútua admiração (como atesta a carta aqui publicada), tendo como um dos seus vértices a admiração partilhada por Fernando Pessoa.
No prefácio do catálogo da exposição póstuma de Mário Botas na Galeria Almada Negreiros2, Eduardo Lourenço escreve: «Poeta singular, a sua vida real foi um breve e fulgurante diálogo com a visão de outros poetas, seus intercessores tanto como ele foi para nós o seu mágico mediador Pessoa, Sá-Carneiro, Nobre, Baudelaire, Kleist, mas também e antes de tudo, Klee» (p. 5). Eduardo Lourenço acabará por dedicar a Mário Botas Fernando, Rei da Nossa Baviera, (Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1986), reproduzindo na capa o icónico desenho de 1980 (tinta-da-china, aguarela e guache sobre papel), Mapa do Túmulo de Fernando Pessoa.


1 Os outros três são da autoria de Arnaldo Saraiva, Carlos Vogt e Luciana Stegagno Picchio.
2 3 de Outubro a 4 de Novembro de 1984.